É suposto que a desventura máxima seja a solidão.
Alguns , os crentes, encontram esse reconforto supremo na religião. Para esses a religião consiste em encontrar uma companhia que nunca falhe - Deus.
A oração é um desabafo, como com um amigo.
Nos artistas a sua obra equivale à oração, porque os põe em contacto com os que dela tirarão proveito.
Daí que problema da vida seja, portanto, o seguinte: como romper a nossa solidão, como comunicar com os outros. Assim se explica a existência do matrimónio, da paternidade, das amizades.
Mas que a felicidade resida nisto, é estranho,é estranho que se deva estar melhor comunicando com os outros do que só. E é talvez apenas uma ilusão: a maior parte do tempo, estamos muitíssimo bem, sós. É agradável ler,ouvir música e, sobretudo ter tempo para nós : dado que pedimos aos outros apenas aquilo que já temos em nós. É um mistério o motivo por que não nos basta olhar e beber em nós próprios e seja preciso reavermo-nos por intermédio dos outros.
A amizade é um belo sentimento de partilha , mas deve ser uma coisa natural e não uma procura desesperada por uma companhia. Se não é uma dependência.
Resta o amor, aí parece-nos encontrar a perfeição, e a realização , talvez ilusória uma vez mais ,porque se não gostarmos de nós o suficiente , se não soubermos estar sós e felizes vamos sufocar o outro e isso deixa de ser amor,é posse.
E amar não é possuir.É ter, e dar ao outro a liberdade de ter, momentos em tenha a possibilidade de poder estar só.
Resta o sexo, e o sexo é um incidente: o que recebemos é momentâneo e casual; pretendemos algo de mais secreto e misterioso de que o sexo , que é apenas um sinal, um símbolo: colmatar a falta de gostarmos de nós próprios.
Assim sendo, qual a explicação para o sentimento viscoso e auto-destruidor, que sentimos quando achamos que estamos sós no mundo e que faz nem sequer termos a certeza de nos encontrarmos no mundo ?
A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.
Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludiram e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios...Rainer Maria Rilke, in
"O Livro das Imagens"